Vazio ontem, vazio hoje

Literatura fácil e prazerosa, “O Jogador”, de Fiódor Dostoiéviski, narra o estilo de vida ao mesmo tempo mundano, ostensivo, vazio da elite russa – e europeia de forma geral – não obstante os personagens serem todos cultos e letrados: uma vida dividida entre temporadas ora na propriedade da cidade, ora do campo, e longas viagens ao exterior; cassinos, bebidas, jóias, intrigas, discussões – tão generalizadas quanto inúteis e inconclusivas, ainda que sob certos aspectos aprofundadas.

Impossível, a meu ver, não comparar tal narrativa com outra obra igualmente agradável, o ácido “Os Belos e Malditos”, de F. Scott Fitzgerald, cujo protagonista (seria autobiográfico?) e seu círculo de convívio chegam a considerar ofensivo terem de trabalhar – todos norte-americanos herdeiros de famílias tradicionais, autointitulados intelectuais, egressos das melhores universidades – vivendo apenas com nome, prestígio e renda as noitadas mesmas das dos russos e europeus de séculos passados.

Cultura não precisa ser cara

Aprioristicamente, insta ressaltar que nas duas situações descritas, o dinheiro por si só não brilha. Para que sejam abertas as portas douradas do prestígio, da alta sociedade, da vaga na fogueira das vaidades são necessários títulos, sobrenomes, tradições – e assim o é em toda a história da humanidade, de modo geral.

Hodiernamente, já se ouviu de um lado “que mais vale um quatrocentão falido que um novo rico, porque não há dinheiro que compre berço” e, de outro, “dinheiro é dinheiro, não importa de onde vem, se é novo ou deixando de lado o horrendo verbete “berço”, pois que não cabe e nem vale a leitura desenvolver tal tema, quero crer, com ingenuidade e tendo como parâmetro o melhor das pessoas (se é que pessoa é “boa”), que na primeira sentença se quer demonstrar que educação, cultura, certos valores são transmitidos através das gerações e, na última afirmativa, que dinheiro é o resultado de esforço e luta de alguém, alguém este que então poderia obter a educação, a cultura, os valores tradicionais e tudo o que de alguma forma “enriqueça a alma” neste contexto.

Cultura não precisa ser cara

A constatação tétrica resultante da análise – ainda que superficial– da História “antropológica” e “social” é que, muito embora a vadiagem, a libertinagem e a ociosidade antigas tenham cedido lugar ao vazio puro e simples, tanto o “novo rico” como o “quatrocentão”, salvo raríssimas exceções, importam-se apenas e tão somente em ter e não em ser (com o perdão do raso e banal paralelo entre os verbos; não se pretende aqui utilizar-se de frases feitas e pensamentos de senso comum: a leitura é pobre mas quer respeitar a inteligência dos leitores).

Erros de linguagem, impossibilidade de completar um raciocínio minimamente inteligível, falta de interesse, por completo, em atividades intelectuais como um simples curso universitário; dívidas oriundas de consumismo apenas por ostentação; o hábito da leitura, para os poucos que ainda o prezam, traduz-se em ilimitada futilidade: revistas de fofoca, best sellers que poderiam ter sido escritos por um chimpanzé – sem ofensa aos símios – nos topos das listas de mais vendidos; a música não tem nem melodia digna de nota, que se dirá sobre as letras: emaranhado de onomatopeias e trocadilhos capazes de corar marquês de Sade ou Nelson Rodrigues; contratos milionários envolvem os mais vexatórios (nem tanto no sentido de pornografia pretensa, mas de vazio intelectual mesmo) conteúdos (ou a falta deles) literários e audiovisuais.

Argumente-se que os hoje considerados e ditos gênios, à sua época de vida, jamais gozaram de reconhecimento, este foi sempre póstumo.

Diante de tal premissa, só resta temer ainda mais pelo futuro: enojar-se de pertencer a uma geração que não produziu nada de relevantemente positivo para ser lembrada é só o começo, é o mínimo de lucidez. Se existirem gênios contemporaneamente, estão soterrados em pilhas de lixo fonográfico, literário, de bens de consumo cuja real necessidade de tê-los é quase sempre nula e a alegria da conquista dura uma febre de resfriado.

Ivan Turguêniev, pioneiro na definição e uso do termo “niilismo”, fez morrer seu protagonista na sua obra-prima “Pais e Filhos” – o polêmico Bazárov – para que a aceitação da crítica à época fosse maior, mas suas idéias eram tão vanguardistas que, temendo até mesmo por sua vida, acabou o autor refugiando-se na Alemanha. E, vejam só, o russo e não só sua obra–prima como toda ela foram e são estudadas a fundo e com admiração até por nomes como Freud e Nietzsche!

Cultura não precisa ser cara

Tantos pseudônimos, tantas prisões e assassinatos decorrentes da divulgação e defesa de ideias e ideais… Os “seres pensantes” por toda a História – apenas para situar mais concretamente à nossa realidade, pensem na nossa ditadura mesmo – jamais se gabaram da riqueza pela riqueza; este não era nem nunca foi o intento, o desiderato, o objetivo.

Não, não se propõe e nem se defende qualquer tipo de revolução, mesmo porque a exposição de tal instituto merece capítulo, análise e estudo próprios – onde se poderá alardear heresias, discordâncias e preconceitos – e, menos ainda, se tem a pretensão despertar qualquer espécie de reflexão.

Considere-se apenas uma divagação, uma constatação vazia como programas vespertinos de televisão, inútil quanto gadgets do ano passado.

 

 

Texto da linda Marina Loffredo.

 

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